quarta-feira, 5 de outubro de 2016

saudade

“Alguma coisa, de repente, aconteceu comigo e perdura até hoje, intocada: o meu amigo viveria enquanto eu vivesse, apesar de estar morto. Eu lhe emprestaria minha vida, pois ela seria bastante para os dois.

Mas algo meu também tinha de morrer naquele instante, por pura cumplicidade. Entretanto, não morreu ali, na hora. Vem morrendo aos poucos, até hoje, de um jeito ou de outro, até mesmo agora, ao escrever estas coisas, enquanto, da minha parte, de um jeito ou de outro, até mesmo agora, escrevendo estas coisas, vou mantendo-o vivo.

(…)
A morte injusta o fez dormir e, gentilmente, por piedade ou remorso, o levou em sonho. Não houve tempo para o adeus, poupando-o da maior dor de partir. O morto que nos deixou, humilde coisa usada, é diverso. Através das lágrimas, dá-se a difração do que era vivo, multiplicando-o nas unidades fundamentais. O silêncio e a ausência tornaram-nas irrecomponíveis. O que já existia antes e existirá sempre inutilmente continua intocado, apesar do morto querido parecer excedente.
Meu amigo está morto. Olho-o longamente sem compreender. Nada do que vejo o identifica a meu amigo morto e a meu amigo vivo em mim. Não os posso aceitar dessa forma divididos, diferentes e incomunicáveis. As lágrimas vão secar, mas a difração continuará para sempre.
Já não há mais meu amigo morto, fora ou dentro de mim. Trago-o apenas vivo, atrás dos olhos e antes de cada gesto. Duro e inaceitável é não estar mais depois dos dele e ao alcance de suas mãos.”

Trecho do conto “Uma vida para dois” do livro “Ame e dê vexame” de Roberto Freire.

Pra minha linda amiga Nicole, que vive em mim.